O diagnóstico de câncer costuma chegar como um silêncio pesado. Em poucos minutos, planos são suspensos, rotinas se desfazem e a vida passa a girar em torno de exames, consultas e tratamentos. No meio desse processo, muitas mulheres descobrem que a doença não atinge apenas o corpo, ela também testa, e muitas vezes rompe, laços afetivos construídos ao longo de anos.

Dados citados por especialistas ouvidos pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) indicam que até 70% das mulheres diagnosticadas com câncer enfrentam separação ou abandono do parceiro durante o tratamento oncológico. Mais do que um número, o dado revela histórias de solidão vividas justamente no momento em que o apoio emocional se torna essencial.

A rotina do tratamento é exaustiva. Há dias de esperança, mas também há dias de medo, dor e insegurança. O corpo muda, o espelho já não reflete a mesma imagem e a autoestima é colocada à prova. Para muitas pacientes, o parceiro — antes presença constante — passa a se afastar, primeiro emocionalmente, depois fisicamente.

Especialistas apontam que o abandono raramente é repentino. Ele surge no cansaço acumulado, no silêncio que substitui o diálogo e na dificuldade de alguns companheiros em lidar com a vulnerabilidade, a fragilidade e a possibilidade da perda.

A psicóloga Larissa Menezes de Sá Santos Barbieri explica que, em muitos casos, o câncer acaba evidenciando fragilidades que já existiam dentro das relações familiares. Segundo ela, durante décadas muitas mulheres foram educadas para assumir múltiplas responsabilidades, cuidando da casa, da família e de todos ao redor, e muitas vezes até mesmo quando estão doentes.

“Quando uma mulher para, especialmente em uma situação como o câncer, todo o eixo familiar se desestabiliza. Muitas vezes ninguém sabe lidar com essa nova realidade, nem mesmo a própria mulher, que em muitos casos desaprendeu a ser cuidada”, observa.

Diante dessa realidade, o acolhimento emocional torna-se tão importante quanto o tratamento médico. Em Sorriso, o Instituto Cirinho Sorrindo atua oferecendo apoio e cuidado integral a pacientes oncológicos e seus familiares. A instituição disponibiliza acolhimento humanizado e acompanhamento por profissionais, como psicólogos, que auxiliam pacientes a lidar com o impacto emocional do diagnóstico, do tratamento e das rupturas afetivas que muitas vezes acompanham esse processo.

Ainda de acordo com a psicóloga, o acompanhamento psicológico é fundamental não apenas para a paciente, mas também para os familiares. O objetivo é ajudar todos a compreender melhor os papéis dentro do lar e a lidar com as emoções que surgem durante o enfrentamento da doença. “Todos precisam ser escutados em seu sofrimento, mas a mulher… ela precisa ser escutada e acolhida”, destaca.

Embora o percentual citado pela SBM não seja fruto de um estudo único e definitivo, ele reflete uma realidade observada diariamente em consultórios, hospitais e serviços de apoio psicológico, onde mulheres relatam o impacto emocional profundo da ruptura afetiva durante o enfrentamento do câncer.

Esse cenário reforça a urgência de um cuidado oncológico mais humano e integral. Tratar o câncer é também acolher emoções, oferecer escuta e fortalecer redes de apoio que ajudem o paciente a atravessar o tratamento com dignidade, afeto e menos solidão.

“Falar sobre o impacto do câncer nos relacionamentos é dar voz a quem sofre em silêncio. É lembrar que, diante da doença, a presença, o cuidado e o amor também são formas de tratamento,” reforçou Carla Pianesso, presidente fundadora do Instituto Cirinho Sorrindo.

Por Adriano Carneiro – Da assessoria